sábado, 6 de setembro de 2008

Catarse

Há um mês fizeste anos. Já eras oficialmente idoso como me disseste ao que prontamente te corrigi dando-te o estatuto de sénior. A palavra e o conceito de idoso não te assentavam, pois a experiência de uma vida ainda se aliava a uma vivacidade, que embora discreta, facilmente deixavas entrever. Fomos jantar fora, a data era de comemoração e além disso no dia seguinte entraria de férias o que me oferecia uma sensação de tranquilidade.

A espera pela hora de jantar foi feita na minha varanda, contemplando aquela vista que nos enche os olhos e envolvemos o ambiente de som de conversas triviais e de algumas gargalhadas. Jamais esquecerei este fim de tarde, descontraído, em que a conversa fluiu sem pressas, assim como jamais voltarei a contemplar aquela vista da mesma maneira.

Seguimos para uma esplanada à beira-mar e num ambiente informal comemos e bebemos uma refeição agradável. Sei que não gostávas propriamente de fazer anos, porque o peso da idade não te era indiferente, mas gostavas dos mimos inerentes a este dia.

Dias depois rumaste a Sul ao nosso encontro e gozámos juntos uns dias de férias, serenos, com muita praia e Sol e em que demos ao descanso o direito de se impôr. Não houve alertas nem sobressaltos de que algo não estaria bem. Não houve qualquer índício que nos levasse a crer que o bem estar que sentiamos não era verdadeiro. Deixámo-nos levar à velocidade do tempo e ao simples prazer de estarmos juntos que, sem o sabermos seria a última vez.

O último dia que te vi foi passado em família, num ambiente que sei que tanto apreciavas e que hoje tanto se ressente com a tua ausência. Sentados à mesa disseste, como tantas vezes já havias dito, que gostarias de viver até aos 100 anos, e eu sei que era verdade. Eu sei que gostavas muito de viver.

Mas depois, depois numa manhã foste levado pelo vento, numa rajada implacável, que de tão forte e tirana não nos deu qualquer hipótese de te agarrar. A vida pode ser tão frágil, tão avassaladoramente frágil. E esse vento trouxe o vazio, o desespero, a angústia, a incredulidade, e dor muita dor.

É tão difícil saber que já não existes para além das nossas memórias. Revejo-te em tanta coisa minha mas não te vejo. E dói, dói muito. Sinto-me a viver numa redoma onde o ânimo e a alegria não encontram a porta de entrada e tento aprender a viver de novo ainda que assaltada por mil e um receios que não consigo evitar.

Tento erguer as minhas armas na luta contra estes sentimentos destruturantes, talvez a escrita possa ser uma delas, mas o alívio parece que tarda a chegar.

Novamente surge a esperança de que o tempo possa ser o calmante da vida.



Nota: obrigada pelos comentários ao meu post anterior. Dirigiram-me palavras lindas e sensíveis que me reconfortaram. É bom sentir que a empatia faz parte deste mundo. Os meus mais sinceros agradecimentos.

17 comentários:

Susana Pina disse...

Minha querida, como sabes também perdi o meu pai, tinha na altura 77 anos, e também adoraca viver. Levei tempo até conformar-me (se é que alguma vez nos conformamos), mas a saudade, essa nunca passa, pelo contrário, aumenta a cada dia. Conforta-me saber que tudo fiz para que o meu pai fosse feliz, enquanto esteve ao meu lado, e que hoje o guardo aqui no meu coração. Acreito que lá no céu os nossos pais olham por nós. Não estamos sozinhas amiga, e um dia iremos encontrá-los.
Um grande bj no teu coração
Susana

Maganita disse...

Minha doce amora… a perda súbita de alguém que é parte de nós é avassaladora, sentimo-nos impotentes perante a sua irreversibilidade, e dor essa vai latejando no coração. Mas é preciso reunir as forças que restam e viver um dia de cada vez, aprendendo a (con)viver com a ausência. O afecto é imortal e apesar das muitas saudades, irá reconfortar-te nas horas mais importantes.
Deixo-te um grande beijinho e um grande abraço em forma de amizade, que embora de forma virtual é muito sentido. Sentes?

IC disse...

Querida amiga, o tempo não cura mas ajuda, lentamente vais conseguir acordar e viver o dia com as recordações, mas sem aquela dor de saudade que parece uma ferida ainda a sangrar. Um beijinho enorme.

Golfinho Filipa disse...

Olá minha querida... Não acredito que deixes de sentir a falta de alguém que te era tão querido... Acho que se aprende a viver com a distância, com a saudade...

Um beijinho grande

stardust disse...

Fica um vazio, que ao longo do tempo vamos tentando preencher... Um vazio...

Beijocas

Pi disse...

Lindas estas palavras que lhe dedicaste!!!
E novamente o tempo abrandará a dor.
Beijos

Mary disse...

Bonito texto... momentos para recordar...
E penso que te deve saber muito bem escrever obre esses momentos.
Bjs

cate disse...

amiguinha...
essa ferida aberta que hoje doi tanto vai tornar-se numa linda cicatriz! Vais olhar para ela e vais conseguir seguir em frente com um sorisso na alma!
Força linda!!
muita força
beijos mil
cate

YAMI disse...

Querida

Um grande beijo ..de novo e sempre

yami

pat07 disse...

Como só tu poderias escrever... lamento muito minha querida que estejas a passar por esta dor. Emocionei-me ao ler as tuas palavras. Um grande beijinho

criolinha disse...

Minha doce amiga. Comoves-me sempre com as tuas palávras. No dia em que falamos eu nem tinha palavras decentes para te consolar. Sentia um nó na garganta que me engasgava mas tu estavas firme e lúcida, como uma grande mulher estaria apesar da dor extrema.
Gosto muito de ti :)
Um beijinho e um mini doce

Pintas disse...

Esta dedicatória está muito bonita.
As saudades aumentam....
Um grande beijinho amiga.

Pintas

Anna72 disse...

Amiga, nem sei o que dizer :(

Lamento tanto!

Um beijo e um abraço.

A mamã do Biscoitinho disse...

Tenho tanto pena..... Nestas alturas não se sabe bem quais as palavras certas para reconfortar esta perda irreparável... Fizeste-me chorar com as tuas palavras (como tantas outras vezes em outros posts, mas especialmente nestes últimos dois...) Fizeste-me pensar que se deve dar muito valor aos que ainda estão vivos e nunca esquecer os que nos deixaram. Acredito muito que o teu pai continua contigo no coração e concerteza vai tentar arranjar uma maneira de apaziguar a tua dor. Não consigo imaginar perder os meus pais, temo-los muito como dados adquiridos na nossa vida e nunca nos lembramos que são pessoas mortais como as outras pessoas, mas são OS nossos pais, não é suposto nos abandonarem...

Muita força querida amiga...

Ceres disse...

Custam-me tanto estes posts! Porque não sei o que dizer... e porque acho que só consigo imaginar menos de 1/10 da tua dor e já a acho tremendamente insuportável!

Cada vez mais acho que devemos dar-nos a quem amamos todos os dias, dizer-lhes que os amamos, que lhes queremos bem, que são importantes na nossa vida, que nos orgulhamos deles.

Devo estar a ficar velhota pois há 10 ou 15 anos não pensava nada assim. Como já alguém disse, são os nossos mortos que nos envelhecem...

Agora, amiga, memória selectiva!!!!! Faz por te lembrares apenas dos bons momentos, das palavras doces, dos sorrisos fáceis, do amor, do carinho. O resto, as "palmadas", esquece.

Reflexos disse...

É verdade, dói.
Perdi a minha avó no fim de semana passado... tinha 92 anos! Era uma força da natureza. Foi ela que me ajudou a nascer e a primeira pessoa a tocar em mim!

A forma que eu arranjei de me reconfortar é dizer que tenho mais uma estrelinha a olhar por mim e... se eu ja´gostava de olhar para o céu e para as estrelas... agora não falha!

Força

TC disse...

Umas semanas sem aqui vir e deparo-me com tanto sofrimento na tua pele e na de quem te rodeia.
Palavras não passam disso mesmo, dirão alguns. Para mim, palavras podem marcar a diferença e ter calor, sentimento e aconchego. Podem ajudar a estravazar ou serem contentoras.
Num abraço apertado, é isto que te quero transmitir, ainda que só em palavras... com muito carinho!