quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Do amor e das ausências

Tenho amor mas sofro por amor
Num paradoxo de sentimentos

Angustio-me com objectos de amor que partiram
Desespero-me com objectos de amor que não chegam

Amo quem já não existe
Amo quem ainda não existe
O meu amor veste-se de ausências

Quero afogar-me em amor ao invés de chorar as perdas
Quero viver os amores presentes
Quero conhecer amores novos
Não quero acumular amores que já não voltam

Quero amar na plenitude
sem sombras
sem receios...

somente amar

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Relato de uma aparição fugidia


Já não o via há algum tempo e por breves instantes assomou à minha janela, tímido, cauteloso, mas com a beleza com que sempre me habitou. Sinceramente não me canso de o ver, de o sentir, e por mim beneficiava todos os dias da sua presença.

Infelizmente tal não é possível, por isso estes momentos de encontro, ainda que fugazes, tornam os esboços de uma alegria em traços definidos de contentamento.

Sei que há muitos mais que dele se enamoram, que o almejam tanto como eu, é compreensível a paixão pelo que é belo, mas não faço da nossa relação um vínculo de posse e por isso partilhava-o com quem quisesse.

Mas ele não deixa. É instável e inseguro.

Presenteou-me com um beijo suave e em instantes me abandonou sem promessas de voltar. Deixou-me as saudades como companheira e a ânsia em estado voraz.

É difícil amarmos um pedaço de céu azul.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Falar de felicidade # 2

Fui desafiada por uma "blogoamiga" que gosto muito de ler e por essa razão não poderia deixar de alinhar no desafio. Digamos que o desafio não é fácil, mas também se o fosse não seria um verdadeiro desafio.
Falar de felicidade pode revelar-se algo complicado. Explicar algo tão subjectivo requer palavras sábias e pensamentos complexos traduzidos em palavras simples.
No entanto, não querendo ser acusada de batota não pude deixar de recorrer a um post meu colocado há uns longos meses e que era precisamente dedicado a este tema.
Ao relê-lo constatei que faço minhas palavras de hoje as minhas palavras de outrora. Para mim a felicidade passa por uma questão atitudinal que requer a nossa actuação sobre a vida e não a mera receptividade de acontecimentos que a vida nos impõe. Há quem tenha tudo e seja eternamente infeliz, há quem tenha pouco e exponencie a felicidade no pouco que tem. Se fizer depender a felicidade da satisfação de algo, a felicidade será sempre fugaz pois o ser humano é insatisfeito por natureza. A felicidade poderá, por isso, ser uma opção, uma atitude que importa ser trabalhada.
No entanto, acho também que a felicidade se baseia na presença de dois elementos básicos
  • Na possibilidade de fazer escolhas ou seja no grau de liberdade que se tem para agir pois considero que quem se vê impossibilitado de usufruir deste direito, está amputado na sua capacidade de ser feliz;
  • Na presença de laços de afecto, ou seja do tão falado, aclamado, desejado, amor. Este é o motor da felicidade, aquele que ainda que não parecendo, alimenta todas as felicidades, mesmo as mais envergonhadas. Não acredito numa vida feliz sem afectos.

Poder-se-ia dizer tanta outra coisa sobre este tema tão vasto mas fico-me por aqui. Sei que faz parte do desafio eleger os desafiados mas eu farei essa eleição numa base voluntária ou seja, quem quiser responder ao desafio faça o favor de deitar para a blogosfera aquilo que lhe convier acerca do assunto. Nunca é de mais falar acerca do que nos move.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

The first of 2009!

Depois de uma ausência algo prolongada, eis que surge o primeiro post do ano. Isto de ser o primeiro tem o seu quê de responsabilidade, ainda mais depois de vários dias de inexistência de palavras. Pois bem, defraudo já as expectativas de quem possa achar que vai sair daqui um post genial e hiper criativo. Apenas achei que com o frio que por cá anda, este blog corria o risco de morrer de síndrome agudo de ausência de palavras e como não é essa a aspiração que tenho para ele, resolvi prevenir e injectar rapidamente umas palavrinhas ainda que possam ser detentoras de pouco conteúdo.

Primeiro que tudo, quero dizer que apesar dos últimos posts, falarem muito do binómio alegria/tristeza, pois tenho vivido muito no balanço deste dois estados, posso afirmar que o balanço tende para o equilíbrio e que longe de ter a alegria pura que antes sentia, a tristeza também não é o traço que mais me caracteriza. Portanto posso dizer que vou andando bem, com gostos, com vontades, com pequenos entusiasmos, ainda que regados de muitas saudades.

Depois, aproveitando também o estatuto de primeiro post do ano, venho dizer que este blog não será, para já, encerrado, como cheguei a ponderar, mas talvez venha a sofrer algumas mudanças. Afinal de contas os blogs também amadurecem… tal como as amoras.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Estranha

De facto 2008 não tem abonado em generosidade. Ofereceu-me sensações e emoções nunca antes vividas e que honestamente desejaria não as ter sentido. Não obstante ser fã da frase que é para mim lema “aquilo que não nos mata, torna-nos mais fortes”, a verdade é que preferia envergar menos força e ter um pouquinho mais de dias de uma alegria repleta.

Os acontecimentos deste ano tornaram-me “estranha”. Não consigo definir este meu estado de espírito senão me socorrendo desde adjectivo de significado ambíguo, mas a verdade é que a estranheza entranhou em mim.

Sinto-me estranha quando adormeço, sinto-me estranha quando acordo durante a noite em conversas insistentes com a insónia, sinto-me estranha até nos momentos de maior calma e apaziguamento.

Afastei-me de sonhos antigos para abraçar uma vivência do dia a dia, sem planos e onde os projectos descansam sem saber se retornarão. Sinto-me estranha quando não me identifico com muitas das coisas que movem os outros. Sinto-me estranha quando os meus temores me assaltam para furtar muita da alegria que (ainda) teima em querer reinar.

Quero ser eu de novo ou então esperar que a estranheza seja sinónimo de uma habituação a um novo estado onde ainda não me reconheço mas que em breve me trará serenidade.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Ao som dos Nouvelle Vague

A música continua a liderar o meu tema de (poucas, é certo) conversas. O post anterior tem permanecido por demasiado tempo não por amar incondicionalmente a música do Paião, mas porque os papéis, afazeres domésticos, reuniões, análises de documentos, e outras tantas actividades, adormecem-me o cérebro no meu tempo extra e dificultam-me a vinda aqui. Ando sem tempo e sem cabeça para teclar por aqui.

Mas como a música tem um papel fundamental na minha vida, não podia deixar de referir o bom momento musical que estes senhores me proporcionaram. O Campo Pequeno foi o palco de um concerto fantástico, completamente despretensioso a valer pela entrega dos músicos, pelas irrepreensíveis vozes, pela sensualidade em palco e pelo ecletismo que alcançam, até na sua vertente mais estética.
Gostei, gosto sempre quando vejo que quem toca tem tanta vontade de permanecer em palco quanto os que os escutam.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Música da minha geração


Eu até nem sou muito dada a saudosismos, nem sou especial fã das rádios que passam músicas de tempos idos, mas ouvir as canções do Carlos Paião, que eu ouvia nos anos 80, cantadas agora por várias bandas nacionais, tem feito as minhas delícias. No album de tributo ao cantor, há canções bem catitas onde o estilo original do seu autor foi guarnecido de uma sonoridade actual e adaptado ao estilo dos seus intérpretes. É claro que não gosto de todas da mesma forma, algumas versões estão para mim demasiado coladas ao som que lhes deu origem, mas outras há que me fazem cantar a plenos pulmões. Partilho aqui uma das que acho mais original.


Vinho do Porto - Donna Maria

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Outro lado de mim

O meu entusiasmo esquivo, de comportamento arredio, começa a dar passagem a alguns desejos, a algumas vontades.

Parte de mim desapareceu mas uma nova parte aflora a cada momento.
Sou agora outro lado de mim.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Tristeza e alegria

"A alegria ou euforia é o encontro festivo com o outro. É o prazer da inundação do ser no abraço libidinal.E assim, definimos o investimento do objecto como um movimento da líbido para o outro, que, no seu percurso, investe o próprio. O prazer vem portanto da actividade de estar com... Nasce do exercício da relação libidinal. Por outras palavras: o investimento objectal acompanha-se de um investimento narcísico. É o estado amoroso.


A dor, a tristeza, é o deserto relacional. A ausência do outro para investir; o que reflexamente desinveste o próprio. É a hemorragia da líbido através da ruptura da relação. Rompido o sistema relacional Self-objecto, o indivíduo sangra e sofre.Perdido o objecto, não há apelo ao movimento libidinal. É então a queda da líbido, que, para não se esgotar na sangria da tristeza, abandona o Self e se refugia no Id (como a seiva das árvores, durante o Inverno: reflui para as raízes).Para não cair na apatia, na impotência e no desespero, pela certeza da irreversibilidade da perda e a possibilidade da construção imaginária de um novo alvo. E, deste modo, sair do investimento nostálgico do objecto perdido.


A elaboração da perda faz-se, assim, pela mentalização do desprazer.Fazer algo da dor: criar, pela invenção do imaginário, no espaço dolente da falta. Sonhar... enquanto não se pode realizar. Jamais desistir. Porque a "morte", essa, é "vazia; nem dor nem alegria".
Viver, apesar de... apesar da perda, apesar de tudo."



Excerto de um texto de António Coimbra de Matos in "A Depressão"

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Em crise

A minha pessoa está em crise. Não sei se passageira, se profunda.
Perdi a capacidade de me avaliar.
Sinto que me conheço tão bem quanto me desconheço.
Nutro segredos de mim mesma, eficazmente entranhados num inconsciente que não flui à consciência.

Vivo numa clivagem e muitas vezes sinto que não me identifico com o mundo e com os outros. Sinto-me um ente alternativo no meio de comportamentos padronizados.
Espero demasiado daquilo que nada recebo.
Oiço as conversas dos outros e parecem-me despropositadas, destemperadas, sem conteúdo e sem teor.
Tenho tanto medo que o amargo passe a ser o paladar da minha vida.

Ainda me restam vontades, mas sinto que poucas. Com medo de as perder agarro-me a uma… a vontade de sair desta crise.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Em mim





Há em mim vontades tímidas,
Um Sol de Inverno
Uma paleta de cores ténues

Há em mim sonhos por desbravar
Sequelas de mágoas
Receios hegemónicos

Há em mim lutas ferozes
Amores por dar
Emoções sentidas

Há em mim solidão
Gente que não fala
Sentimentos estranhos

Há em mim pedaços do que sou
Confabulações intrincadas
Desassossegos meus

sábado, 6 de setembro de 2008

Catarse

Há um mês fizeste anos. Já eras oficialmente idoso como me disseste ao que prontamente te corrigi dando-te o estatuto de sénior. A palavra e o conceito de idoso não te assentavam, pois a experiência de uma vida ainda se aliava a uma vivacidade, que embora discreta, facilmente deixavas entrever. Fomos jantar fora, a data era de comemoração e além disso no dia seguinte entraria de férias o que me oferecia uma sensação de tranquilidade.

A espera pela hora de jantar foi feita na minha varanda, contemplando aquela vista que nos enche os olhos e envolvemos o ambiente de som de conversas triviais e de algumas gargalhadas. Jamais esquecerei este fim de tarde, descontraído, em que a conversa fluiu sem pressas, assim como jamais voltarei a contemplar aquela vista da mesma maneira.

Seguimos para uma esplanada à beira-mar e num ambiente informal comemos e bebemos uma refeição agradável. Sei que não gostávas propriamente de fazer anos, porque o peso da idade não te era indiferente, mas gostavas dos mimos inerentes a este dia.

Dias depois rumaste a Sul ao nosso encontro e gozámos juntos uns dias de férias, serenos, com muita praia e Sol e em que demos ao descanso o direito de se impôr. Não houve alertas nem sobressaltos de que algo não estaria bem. Não houve qualquer índício que nos levasse a crer que o bem estar que sentiamos não era verdadeiro. Deixámo-nos levar à velocidade do tempo e ao simples prazer de estarmos juntos que, sem o sabermos seria a última vez.

O último dia que te vi foi passado em família, num ambiente que sei que tanto apreciavas e que hoje tanto se ressente com a tua ausência. Sentados à mesa disseste, como tantas vezes já havias dito, que gostarias de viver até aos 100 anos, e eu sei que era verdade. Eu sei que gostavas muito de viver.

Mas depois, depois numa manhã foste levado pelo vento, numa rajada implacável, que de tão forte e tirana não nos deu qualquer hipótese de te agarrar. A vida pode ser tão frágil, tão avassaladoramente frágil. E esse vento trouxe o vazio, o desespero, a angústia, a incredulidade, e dor muita dor.

É tão difícil saber que já não existes para além das nossas memórias. Revejo-te em tanta coisa minha mas não te vejo. E dói, dói muito. Sinto-me a viver numa redoma onde o ânimo e a alegria não encontram a porta de entrada e tento aprender a viver de novo ainda que assaltada por mil e um receios que não consigo evitar.

Tento erguer as minhas armas na luta contra estes sentimentos destruturantes, talvez a escrita possa ser uma delas, mas o alívio parece que tarda a chegar.

Novamente surge a esperança de que o tempo possa ser o calmante da vida.



Nota: obrigada pelos comentários ao meu post anterior. Dirigiram-me palavras lindas e sensíveis que me reconfortaram. É bom sentir que a empatia faz parte deste mundo. Os meus mais sinceros agradecimentos.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Falar de Férias



Falar sobre férias é reservar palavras para o ócio, é dedicar conteúdo ao descanso merecido.
É apelar ao Sol, aos dias amenos e ao céu azul.
É dar uso às gargalhadas, aos assentos nas esplanadas e à indolência.
É elevar a preguiça a virtude e o trabalho a pecado capital.
É abusar dos chinelos, da roupa leve e do cabelo ao vento.
É olhar com a pele e sentir com os olhos.
É viver para aquilo que apetece desprezando o tempo.
É saborear as noites sem pressas e atropelos.
É o prazer de nada fazer ou de fazer aquilo que somente se quer.
É acreditar que possa ser tudo mesmo que venha a ser nada.
É exacerbar os sentidos para receber os dias.
É liberdade vivida e sentida.
É alegria e degustação de felicidade.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Quero

Quero voar e não apenas caminhar,
Quero gritar e não somente sussurrar
Quero ir mais além sem avanços subtis
Quero rir e não apenas sorrir
Quero viver em pleno e não apenas cada dia
Quero sonhar e poder concretizar
Quero amar de todas as formas e sentir o amor que me falta
Quero ser completa sem ter de esperar
Quero ser, quero estar,
quero permanecer satisfeita sem sombras persistentes no caminho

Quero o Sol com poucas nuvens
Quero as cores sem o cinzento
Quero as emoções sem o desespero
Quero a felicidade sem salpicos
Quero o mar com ondas de optimismo
Quero o possível do impossível
Quero ser um eu perfeito nas suas imperfeições
Quero querer e poder escolher
Quero dar e recolher

terça-feira, 29 de julho de 2008

Lisboa em actos

É por isto que gosto tanto de Lisboa, a modernidade com a tradição andam de mãos dadas e não aos encontrões como seria de prever. Convivem lado a lado avanços modernos da tecnologia e locais pitorescos que aludem a uma essência já quase em vias de extinção nas grandes urbes.

Num destes dias numa das minhas incursões pelos locais típicos da cidade, lugares belíssimos mas de estacionamento muito difícil, tento parar o carro num parque subterrâneo, da sobejamente conhecida EMEL. Até aqui nada de muito original não fosse o facto do parque ter os portões fechados e nos presentear com a frase “clique no botão vermelho caso não existam seres vivos dentro do veículo”. Confesso que me assustei já a imaginar o que se passaria ali que não se coadunasse com qualquer forma de vida, mas prontamente nos explicaram que o carro era parqueado…sozinho, com recurso a um elevador e a outras tantas tecnologias inovadoras que o colocavam no sítio certo, dispensando assim ter de andar a fazer manobras em espaços apertados. A recolha do veículo era depois feita da mesma forma automática tendo apenas que aguardar a entrega do carro pelo elevador. E foi assim que constatei que em pleno local histórico de Lisboa se continua a fazer história mas desta vez com a oferta de um parque de estacionamento que é o pioneiro nas mais modernas técnicas de estacionamento dispensando o ser humano, e ainda o único no país.

Mas as surpresas não acabavam por aqui. Uns metros à frente, eis que pela primeira vez reparo no nome de um largo bastante revelador de que o português tem, afinal, um sentido de humor bastante original, como podem comprovar pela foto.


Foto: www.olhares.aeiou.com


Por debaixo da placa toponímica está estrategicamente colocado um banco, ocupado na sua maioria por velhotes que ali se juntam para a conversa de entretém. Quem por ali passa e repara na placa, não pode deixar de esboçar um sorriso e mesmo a tirada de uma foto e os que por ali se sentam convivem pacificamente com estes olhares matreiros.

Para mim as cidades interessantes vivem destes contrastes, a presença do moderno sem eclipsar o genuíno.

domingo, 27 de julho de 2008

Mudanças

Tenho vivido dias cheios, repletos de estímulos que me preenchem os silêncios e me sustentam os pensamentos. As mudanças conduzem-nos a isto, a um esquecer de tantas coisas que nos rodeia para nos concentrarmos na transformação do curso da nossa vida.

E é impressionante constatar como os locais onde estamos ditam os nossos hábitos como se estes lhes pertencessem e não à nossa pessoa. De repente vi-me despojada de comportamentos que achava típicos em mim, para abraçar todo uma série de outros que até então me eram alheios mas que me vieram oferecer outras perspectivas. A sensação de vestir uma outra vivência.

Sabe bem sentir que ainda é possível controlar um pouco da nossa vida, orientando-a na direcção daquilo que sabemos que nos faz bem. Sabe bem sentir que por vezes as coisas ainda correm como as projectamos. Sabe bem sentir que vale a pena investir em nós.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Antagonismos

Há coisas que só me fazem sentido se existir o seu oposto. Como se o seu desfruto dependesse da presença do seu contraditório. O barulho se houver silêncio, o preto se coexistir o branco, a terra se observar o mar. Deve ser por isso que gosto da estabilidade e da mudança quase em iguais proporções.

Preciso da estabilidade para me reencontrar e necessito da mudança para me redescobrir.

A estabilidade faz-me sentir segura, por saber que posso contar com algo que jamais me abandona, porque me oferece um porto de abrigo e me permite viver sem sobressaltos. A mudança faz-me falta para descobrir novos mundos, para conhecer para lá da minha normal existência, para me distanciar da monotonia e me deixar envolver pelo prazer do desconhecido.

A estabilidade é a minha bússula mas a mudança é o que me faz querer caminhar.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Decidir pela eutanásia de um amigo de 4 patas não é fácil. Mesmo quando o racional está do nosso lado e os factos não nos permitem ter dúvidas quanto ao seu sofrimento, sermos nós a dar a ordem de acabar com uma vida é uma coisa que abala.

Falo nisto porque tive de o fazer há uns dias. De repente vi-me confrontada com a decisão urgente de escolher entre o binómio "vida com sofrimento/ morte com dignidade". Deixei-me levar pelos argumentos da lógica mas o lado emotivo jamais me abandona e não consigo deixar de pensar que gostaria muito que tivesse sido a própria vida a tomar essa mesma decisão.

Todos os animais que temos são especiais, e quem como eu gosta da sua companhia, sabe do que falo quando digo que todos eles são diferentes, com personalidades próprias e a ocupar o seu próprio estatuto na nossa vida. Esta minha gatinha não fugiu à regra e por isso deixar-me-á sempre saudades e a mágoa de me ter imposto ao seu destino.

Sei que ela me perdoará, pois se há coisas que os gatos não gostam é de perder a sua dignidade, mas resta-me aprender eu própria a conviver com esta situação e a aceitar que para onde quer que ela tenha ido o sofrimento já não a acompanha.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

O "senhor do adeus"

Foto: www.olhares.com

Há personagens que fazem parte da nossa vida sem que com elas tenhamos trocado uma só palavra. Habituamo-nos à sua presença e são como que património da nossa vivência. Hoje apeteceu-me falar de uma destas personagens. Há já muito que lhe quero dedicar um post e hoje resolvi finalmente fazê-lo.

Escolhi-o porque passo por ele todos os dias e porque é suficientemente carismático para me roubar algumas palavras escritas. Esta personagem soube atribuir a um corriqueiro gesto do quotidiano, um significado especial e misterioso, levando-nos a pensar que tipo de vida se esconde por detrás de um aceno.

A personagem de que falo é o “senhor do adeus” uma personagem que os lisboetas conhecem e que, todos os dias desde há alguns anos, se dirige para as zonas do Saldanha (à noite) e Restelo (ao final da tarde) para acenar ininterruptamente, e sempre com um sorriso pueril nos lábios, para os carros que passam. Este ritual obsessivo, tem tanto de enigmático como de desconcertante, e se não fosse tão real poderia julgar tratar-se de um verdadeiro mito urbano.

Eu devolvo-lhe sempre o aceno e por perceber que o faço feliz, sinto-me também eu feliz. Afinal de contas, assistir à alegria dos outros faz-nos ficar contagiados por ela. Tal como eu, também os outros carros que passam se envolvem neste ritual. E é ver todos os seus ocupantes a buzinar-lhe, com braços de fora em explícitos acenos acompanhados de uma remessa de beijos e de sorrisos. O “senhor do adeus” é na realidade um senhor originador de bons afectos. E há contentamento nos seus olhos quando as pessoas manifestam esses mesmos afectos.

O “senhor do adeus” comove-me pela sua preserverança, pela simpatia que despoleta em quem passa e por emanar aquela dose de loucura que o faz estar envolto em mistério. Falo de um senhor que parece retirado de um filme dos anos 50, com uma figura que só por si não passaria indiferente, alto, esguio, de cabelo ondulado todo branco, com óculos de massa preta e porte aristocrático.


Depois de muito tempo a recorrer somente à minha imaginação para reconstruir a sua história de vida, descobri recentemente que o “senhor do adeus”, que afinal prefere ser chamado pelo “senhor do olá” se chama na realidade João, tem 76 anos de idade e o seu motivo para elevar o aceno a uma forma de vida, é a solidão com que se deparou há uns anos após a morte da sua mãe. Sente que acenar é a forma de comunicar e de sentir gente.

Por trás daquela figura alta e esguia de trajes clássicos mas marcantes, esconde-se alguém que fez deste périplo a sua razão de existir e tornou a sua pessoa num ícone da cidade de Lisboa.

A mim mostrou-me que um simples aceno tem a capacidade de me pôr bem disposta.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Pedaços de Portugal por estes dias

Por estes dias passeei por alguns pedaços de Portugal. Apesar de termos zonas descaracterizadas, sem qualquer planeamento urbanístico, outras temos que são autênticas pérolas e que fazem deste país à beira mar algo que vale bem a pena visitar.








Eu sou um exemplo de moura que gosta muito do Porto. Depois de ter visitado esta cidade inúmeras vezes em trabalho, só mais tarde descobri que os olhos que se levam quando se visita uma cidade em trabalho não são os mesmos que se levam quando se a visita em lazer. Refeita da miopia que durante anos me assolou, aprendi a gostar, e muito, desta cidade que vive enamorada do seu rio Douro e que tem nas ruas que dele circundam, os seus pontos atractivos. Por isso não passo um ano sem a visitar porque a sua dinâmica forte permite que a cada ano conheça espaços novos capazes de satisfazer as mais variadas exigências de procura.










Posted by Picasa
Como podem reparar, sou apaixonada por cidades amantizadas do mar e não dispenso uma paisagem que me ofereça a cor azulada das águas. Estas últimas fotos mostram pedaços de mais duas cidades situadas nas margens direitas de rios, um conhecido pelos cacilheiros e outro pelos seus golfinhos.
São pedaços de um Portugal bonito.